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    Eu estava frente a ela, em seu leito de morte. Eu só passei apenas 50 anos da minha vida do lado dela. Como posso amar alguém tanto assim? Eu, em meus muitos anos de idade, para mim, 50 anos é apenas um instante. O meu sofrimento agora é supremo. Este é o custo de gostar de uma humana. Os humanos tem uma vida muito curta. Só os animais costumam ter uma vida curta assim. Seres que nascem como eu, não tem esse privilégio, de conhecer novos caminhos e novos destinos mais cedo.

    “Valhandenor, meu lindo elfo, me perdoe pela minha curta vida. Os 50 anos que eu passei com você, foram maravilhosos. E eu sei que você viverá por muito tempo ainda, afinal, sua herança de deuses permitem isso. Permita me dizer que eu ainda quero que você ainda viva muito e que passe pela vida em atos dignos, como você é uma pessoa digna.”

    “Aline, meu amor, eu peço perdão pela minha origem não permitir que eu esteja com você tão cedo assim. Eu peço perdão pelos anos de solitude que você vai sentir. Eu não posso ir embora assim, fácil, não interessa o meu sentimento.”

    “Não tem problema meu amor, os elfos tem uma vida longa, mas assim como acontece com humanos, um dia eu verei você novamente.”

    “Amor, eu preciso contar algo a você. Você me ama, eu sei que irá me entender.”

    “Um segredo? Entre a gente? Eu pensei que nesses 50 anos já tínhamos falado tudo um do outro.”

    “Tem certos segredos que mesmo 50 anos não são capazes de resolver. Aliás 50 anos é pouco tempo.”

    “Eu vou entender você, não se preocupa.”

    E naquele instante eu senti fé. Amar é um sentimento muito raro, sentir fé é privilégio de humanos. Um ser como eu não pode ter fé. A fé não é sustentável por cerca de 500 anos. Não existe fé que dura esse tempo. Mesmo assim, ali estava eu, sentindo a fé naquela mulher, que ela iria me entender. Quem sabe…

    “O meu nome não é Valhandenor, o meu nome real é Valhandenorterimasarilennemastir, na linguagem do meu povo ‘Aquele Que É Perceptivo’, e a minha idade real é de 1254 anos.”

    “Mas isso… isso não é elfo… isso é draco… o que?? não, não é verdade! Me diga! Qual sua origem?”

    “Sim, eu sou um dragão. Um dragão que passou 54 anos metamorfoseado em elfo, sem um instante ter voltado a minha real forma.”

     E o ódio passou a consumi-la.

    “Não, eu não acredito! Você é um devorador-de-humanos, eu pensei que essas coisas estivessem extintas, você é um ser que…”

    E naquele instante, com ódio, ela morreu. Ódio por mim, ódio por minha existência.

    “Me desculpa… Me desculpa por não ter nascido de outra origem… Eu faria de tudo para ter nascido de outra maneira, mas mesmo minha magia mais forte não consegue reverter isso…”

    Os humanos acreditavam que minha raça inteira estava extinta. O que aconteceu na verdade é que os dragões migraram para outros países. E mesmo em outros locais ainda há muitos dragões, mesmo que os humanos desse reino não saibam direito. A minha raça é odiada pelos humanos, e por 500 anos nos caçaram. E apenas 500 anos, foi o suficiente para humanos, com sua incrível capacidade de mutar a si próprio, para nos aniquilarem dentro desse país.

    Sobre a última guerra entre humanos e dragões… Foram cerca de 25 000 homens e cerca de 20 dragões. 20 dragões unidos é algo que não acontece, assim como 25 000 soldados. Éramos dragões comuns, não treinados para o combate. A não ser eu mesmo, que era conhecido como ‘O Exército de Um Único Dragão’ pelo meu povo, devido ao meu conhecimento nas artes da guerra.

Todos os meus 19 companheiros pereceram. E mesmo assim vencemos a batalha, mesmo que perdemos a guerra. Não houve sobreviventes. Afinal, eu, cruel do jeito que era no passado, aniquilei os 700 soldados que pediram rendição.

    E a partir desse dia, eu passei a viver em meio a humanos, por que da minha raça, mais nenhum estava presente nesse país. Mas passei pelo primeiro instante por busca de vingança. Longa, fria e paciente. Na forma de elfo, para não chamar atenção. Afinal, elfos, não interessa a idade, mantém a mesma aparência.

    Porém o destino mudou e algo me aconteceu para querer ser humano.

                                                                                     Conto by Anjo Mórbido

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De lobos o mundo está cheio

    De lobos o mundo está cheio.

    Todo dia de manhã eu acordo, pego minhas escovas, me arrumo e vou pra faculdade. Não que isso difere muito da vida tradicional das pessoas, mas nada mesmo divide meu dia de outros.

    As noites tem suas próprias vicissitudes.

    De noite eu mudo. Fico centímetros maior, mais faminto, com sentidos mais aguçados. Fico com mais pêlos pelo corpo, dentes maiores, boca maior. Não é exatamente algo que se pode conceituar, como a palavra lobisomem. Eu só fico diferente…
    O que é triste. não posso frequentar nenhuma festa à noite, não posso ser visto de noite. Afinal só minha imagem faria alguém correr. Talvez até ir em direção a um hospício.

    Há vezes que imagino se existe mais alguém que nem eu. Afinal, será que é possível conduzir uma família sobre essas condições? Não uma família, mas uma companheira talvez? Minha dúvida nesse sentido será eterna.

    O mais engraçado é quando procuro emprego. Tenho que deixar claro que devido a uma “doença” eu não posso ficar no sereno. Todo mundo pergunta se é AIDS. Até dar uma desculpa como “é meio que alergia a sereno” é meio demorado. E aí o trabalho não pode ficar longe de casa. E sempre me mudo para perto de onde estudo. Sempre é útil.

    Não que eu tenha esperança de algo. Seja emprego seja pessoal. Eu sempre vejo dias como “putz, depois das 18h? não vai dar.”. Hoje foi um desses dias. Eram 18h40 e a cidade está um caos. São Paulo, sempre barulhenta.

    Mas felizmente pouco iluminada.

    18h40 não tem como. Estou até enrolando. Que preguiça. Vou ter que voltar para casa a pé.

    Pego o meu sobretudo da mala. Sim, isso é um equipamento essencial demais para alguém como eu. Com toca e tudo. Quando está calor é infernal. Eu fiz um sobretudo sob medida, com tecido sintético. Ele é fino, mas dá para enganar bem.

    O meu tênis fica apertado. Os furos e cortes estrategicamente feitos e escondidos nele fazem efeito. Estou quase no fim…

    Grito numa voz voraz. “Abra a porta do ônibus motorista”. Ainda bem que escutando eles sempre abrem. O medo é tanto que preferem abrir.

    E estou eu acompanhado da lua. Aumentando mais de tamanho. O sobretudo deixa de arrastar no chão. cobra os pés grandes. Eu até gosto de andar sob essas condições. Normalmente minhas pernas não aguentam longas caminhadas, mas nessa forma eu posso andar por muito tempo. Só sei que demorarei muito tempo para chegar em casa. Talvez dê tempo só de tomar banho e voltar para a faculdade. Vai depender do percurso….

    Ando por horas e estou faminto e com sede. Carne crua se torna deliciosa nesse ponto. E até mata a sede. Vou atrás da minha presa…

    Ela rebola enquanto anda e é linda…

    Ah putz, presa errada. Eu diria que esses instintos também ficam mais interessantes.

    Vou até o açougue mais próximo. Comprar uns apelitivos.

    “O que deseja?”

    “Meio quilo de rosbife, dois quilos de coxão mole e meio quilo de alcatra.”

    Tusso feito tuberculoso. Isso evita me perguntarem sobre minha voz ou olharem para meu rosto. O difícil é pagar rápido, sem olharem minhas mãos.

    Coisa que eu não consegui evitar dessa vez. Entre acusações como “Um monstro!” eu grito “Fica com o troco!” e saio correndo.

    Ganho distância. Além de correr bem, me escondo bem. Escolho uns cantos mais escuros para poder comer em paz. Sento do lado de uma criança mendiga e começo a comer.

    “Moço tem um trocado?”

    Que dó que eu tenho. Dei um pouco do meu rosbife e disse.

    “Coma. Pode comer cru mesmo, é gostoso.”

    “Mas eu quero dinheiro, não essa coisa.”

    E a criança deixa cair a carne e volta a minha direção. Eu fico com raiva e rujo baixo. A criança já nota algo errado. Aí ela passa a ter certeza que tem algo errado quando eu pego o rosbife do chão e como sem piscar, numa única mordida.

    Aí sim ela se assusta.

    Até que hoje em dia estou melhor nesse aspecto. Se fosse antes eu berraria com a criança e ainda por cima comeria o rosbife no chão sem usar as mãos. Anos de meditação. É sempre difícil controlar os instintos.

    Eu ando quando percebo mais pessoas chegando. Não quero correr. Continuo comendo.

    Hum, desviei demais do meu caminho. Estou numa rua que nunca vi. E agora vem a parte difícil. Ou eu uso meu faro para refazer parte do meu caminho ou eu posso subir num prédio e ver de cima como faço.

    Ah tive uma idéia muito melhor!

    “Com licença, em que rua estamos? será que vocÊ pode me informar qual é a avenida mais perto por favor?”

    “Ae mano, tá é de piadinha comigo? Aí boy, perdeu playboy! Passa tua grana ou eu logo exprodo seu célebro!”

    Eu adoro a cultura de nosso povo… Que fascinante… Que romântico…

    Cadê minha carteira mesmo? Ah eu não vou reagir a um assalto… Só por que eu me regeneraria dos furos e todos eles seriam superficiais? É mais barato eu dar o que eu tenho na carteira do que eu ter que remendar denovo o sobretudo. E é um sobretudo tão bonito…

    “E passa seu tênis e essa sua roupa aí.”

    “Ah cara, eu passo meu tênis. Mas me deixa com a roupa por que eu sou um homem doente. Não posso ficar sem!”

    “Ah velho, cê é bixa? adético? ou o quê? deixa de ser retadado!”

    Quando ele terminou de falar aí eu me irritei.

    Eu deixei o sobretudo cair e berrei beem alto. Filho da mãe… Tinha amigos. Eram cinco contra mim. Os tiros vinham de todos os lados e eu os fatiava da maneira que podia. Minhas garras ficaram bem sujas de sangue.

    Depois que a fúria passou bate o arrependimento. Das épocas que eu não conseguia me controlar, eu aprendi primeiros-socorros. Eu já matei alguém, mas só em “auto-defesa”. Era um homem armado também. Mas não foi exatamente auto-defesa. Eu me defendia de um homem armado, mas um 38 contra mim é como se fosse uma faca menor que bisturi e menos afiado para uma pessoa normal. Pode até matar, mas é difícil demais. E eu treino artes marciais desde pequeno, com algumas pausas durante a vida. então nada a se preocupar. É uma pena nem sempre poder controlar a fúria. Mas agora é mais fácil.

    Todos caídos. Eu olho e vejo se não tem nenhum ferido demais. A fúria passa e eu posso me concentrar em fazer ataduras simples. Outra coisa que fica no bolso do sobretudo… Entre as várias. Guardo as armas como tropias, vou até aquele que eu pedi informação. Pego ele pelos braços e coloco contra a parede.

    “Então, posso pedir a informação ou vocÊ prefere que seja a última pergunta escutada na sua vida?”

    “O que? não entendi!?”

santa ignorância…

    “ME DIZ LOGO A AVENDIA MAIS PRÓXIMA E A RUA EM QUE A GENTE ESTÁ OU EU DEVORAREI SEU PESCOÇO!”

    Agora sim ele entende o recado e me dá direções. Eu pergunto como faço para ir em outras avenidas e ele me indica. Eles tinham motos… Mas eu não sei dirigir motos. Não tenho carteira para isso ao menos.

    Vou andando. Sobretudo denovo, etc… Eu espero que esses ladrões nunca mais se intrometam na vida de outras pessoas.

    A lua aparece. Aí então aparece as loiras altas, com salto alto, magras e com braços fortes. Os travecos é claro. Querendo dinheiro fácil enquanto eu passo. Algumas devem ter minha altura. Minha altura durante a noite.

    Os travecos me deixam em paz. Ainda.  O engraçado é ver os motoboys parando para um pouco de emoção. Dá até vontade de guardar os rostos e a empresa q trabalham só para zoar com a cara deles.

    Mas ando. E vem as putas. E algumas são bem discaradas. Me pedem, falam o quanto querem, falam que fazem tudo. Chega até o momento que é difícil dizer não. Controlar-me é difícil. É difícil dizer não. E acabar fazendo com que ela sinta bem mais do que ela imagina.

    Mas é isso exatamente que elas querem. E depois tem o pagamento. E depois tem minha própria moral. Não gostaria de ir com uma prostituta. Será que isso seria perfeitamente plausível? Afinal para uma primeira vez seria desejável o mínimo de romance. É claro que eu poderia dispensar isso tudo para um mínimo de prazer. E fora que se durar uma noite inteira, o que é provável, eu estarei normal no dia.

    E talvez arrependido.

    Portanto, tento me esquivar. Essas coisas demoram demais.

    Estou em direção de casa. A transformação está no máximo. Eu aproveito, subo umas árvores e pulo de uma em outra. Não me contento. Subo em cima de uma casa e pulo de uma casa para outra. Me equilibro em muros. São coisas divertidas de se fazer. E são fáceis de fazer também. Afinal, o rabo ajuda no equilíbrio.

    Vou saltando e vou me divertindo. E vou me distraindo. E vou percebendo. E vou notando. E vou olhando. Agora sim. Agooora sim. Sou perseguido por um carro. Eu procuro uma maneira de esconder-me. Então noto que é um carro com jornalistas. Apenas esconder não é suficiente. Está agora a perseguição. Eu pulo em cima de carros e de casas. Faço caminhos difíceis de se perseguir a carro. Mesmo assim as pessoas me perseguem.

    “Lá está ele!”

    E eu pulo de casa em casa, de carro em carro. Eles me perseguem de muito próximo.

    “Estamos aqui perseguindo uma criatura enorme! Parece um alienígena!”

    Ah é mesmo? Quer dizer que eu me pareço com alienígena? Puxa, que alienígena esse jornalista viu para me comparar com um? Só se for a mãe dele!

    Eu ainda pulo de casa em casa.

    Os homens fazem de tudo para me perseguir. Aí as crianças me vêem.

    Puxa o dia está péssimo. Até que eu tive a idéia de pular num carro em movimento.

    E aí o dia piora. A mulher dirigindo se assusta e perde o controle. O carro bate e eu vou contra o muro de uma casa.

    Ai minhas costelas.

    O muro tem tijolos. Ótimo. Arremesso uns contra o carro deles. A câmera vem muito perto de mim. O parachoque do carro! Claro! Eu pego essa coisa no chão e começo a distribuir cacetadas gratuitamente. Jornalista, câmera, carro. Destruo o carro inteiro como eu posso, deixo pessoas inconcientes. É uma festa. E denovo eu verifico se está todo mundo bem.

    Está todo mundo inconciente. Mas vão sobreviver.

    Ligo para emergência.

    “Eu não sei em que rua estou, mas tem muita gente ferida aqui. Vem rápido!”

    “Quantos feridos?”

    “Eu e mais sete, todos inconcientes. Opa, esquece, eu não estou ferido, mas voltarei para casa. Eu fiz os primeiros socorros e já chamei as autoridades. Não posso fazer nada.”

    “Só me diga o nome da rua.”

    Arranquei uma placa e li no farol do carro dos jornalistas.

    A distância da minha casa está cada dia maior.

    Chego em casa. Minha mãe me aborda. Todo rasgado e com as patas sujas de sangue.

    “Oi filho, como foi seu dia? Está tudo bem?”

    “Ih mãe, tudo sussa. Vou tomar um banho e dormir.”

    Dias assim serão cada vez menos comum. Só eu me acostumar a me esquivar.

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